domingo, 14 de fevereiro de 2016

CRITICAVA, PROVOCAVA E ADORAVA QUEBRAR REGRAS

RASCUNHO ONLINE
      



       Quinta-feira passada morreu meu amigo (clique) Alexandre, gostava de chocar e era profundamente irreverente, mas acima de tudo tinha um humor inigualável, fazia piada com tudo.
      Lembrei das nossas inúmeras e alegres ”cervejadas”, quando chorava de rir com suas "tiradas" politicamente incorretas, mas ontem chorei como uma criança com sua morte.
       Coincidentemente, no início da semana passada contei algumas dessas piadas para meu filho, e ele disse que esse tipo de abordagem é sempre nociva: "Quando o assunto é preconceito não interessa a intenção, uma brincadeira em um grupo de amigos que te conhece é uma coisa, em sala de aula é outra. Um discurso babaca vai sempre endossar um otário".
        Desde que fiquei sabendo de sua morte estava relutando em escrever sobre esse assunto, já que o cuidado tem que ser redobrado por causa das interpretações, mas acredito que as piadas do Alexandre eram apenas com os amigos, já que sempre foi muito rigoroso com seu conteúdo, Geografia, tive até vários desentendimentos com ele em "Conselhos de Classe" por causa de sua "sanguinolência" no que se referia a reprovar, só quem pode dizer se contava ou não essas piadas em sala são seus ex-alunos, acredito que não, ele era irreverente, mas não era bobo. 
      Eu, ao contrário, mesmo com amigos próximos sou excessivamente cuidadoso com as palavras, sempre detestei piadas preconceituosas e estou sempre medindo as palavras e a forma como vou dizê-las, se gay ou homossexual, negro ou crioulo, mas nunca cheguei, por exemplo, ao exagero de usar a expressão afro descendente, tenho a natural preocupação em não ofender pessoas ou qualquer grupo social, na verdade as piadas do Alexandre eram bem mais sutis do que as grosserias que escutamos de vez em quando por aí, era uma crítica ao que todos nós, que, em maior ou menor escala, conhecemos como “da boca pra fora”... tudo aquilo que falava ou dizia ter feito não passavam de provocações, era a forma que encontrava para quebrar as regras e provocar.
      Com o tempo assimilei esse conjunctio oppositorum (cliquede nossas personalidades, ele me fazia rir de coisas que nunca sairiam de minha boca, pelo menos na forma, nossas diferenças eram gritantes. Das suas milhares de piadas, tem uma que serve de exemplo para entender todas as outras... um dia ele saiu de uma sala de oitava série, onde seria minha próxima aula depois do recreio, e, lá na sala de professores, foi logo criando indignação com os colegas... disse que na aula anterior estava com vontade soltar um “pum” e foi lá para o fundo da sala... “soltei um daqueles ‘baixinhos insuportáveis’, e voltei para minha mesa para me divertir com os alunos brigando: 
"- Foi você..." 
"- Não, foi você”
      E o pior, não desmentiu o que acabara de "criar". e como também gosto de uma boa brincadeira, entrei em seguida nessa sala e perguntei quem tinha soltado “pum” na aula do Alexandre, e que essa flatulência já estava famosa na escola.. Para minha surpresa não tinha acontecido nada, aluno algum deixaria de comentar um fato como esse... foi apenas mais uma de suas muitas enganações para chocar e provocar graça.
       Mesmo com toda nossa amizade, um dia cheguei na escola e disse que tinha assistido um dos melhores filmes de minha vida... "Invasões Bárbaras" (clique), de Denys Arcand. Alexandre pediu emprestado, e no dia seguinte:
"- Uma merda! Não sei como você consegue ver uma bosta dessas"
      Foi por perceber o que estava por trás de irreverências assim é que passei a ser leniente com suas piadas, muitas (a maioria) impublicáveis... mas ele não estava nem aí... talvez tivesse consciência de suas boas intenções.
         Além disso dava um certo equilíbrio entre o meu "chatíssimo e sufocante politicamente correto" com suas escrachadas e impublicáveis abordagens.
     

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