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quinta-feira, 8 de julho de 2010

BLOGUEIROS NARCISISTAS


                                                             


           Muitas vezes escrevo só para mim, antigamente jogava alguns rascunhos no lixo, hoje guardo tudo, nestas ocasiões "filtro" meus pensamentos, isso ajuda a clarear minhas idéias e me satisfaz... melhora o autoconhecimento. Mas quando escrevo no blog quero ser lido e difundido, e não apenas que fique como um introspectivo diário pessoal, como tantos que encontramos por aqui neste fabuloso espaço virtual.
           Na última postagem usei a estratégia dos grandes jornais e atraí o leitor pelo título, e funcionou, já que o contador de visitas do blog turbinou. Em vez de dizer que o amigo que ia ser cremado em Portugal, o amigo era o Márcio, mas como o escritor José Saramago ia ser cremado no mesmo dia, insinuei que meu amigo seria o escritor 
           Esta tática colocou foco em meu umbigo, mas este narcisismo me incomoda, por isso, sempre procuro fazer uma compensação... um contra peso, equilibrar quando percebo um aumento desta necessidade tão inerente ao ser humano. Ao falar da dor de perder um amigo, mostrei e falei da poesia de Saramago; na penúltima postagem, no dia dos namorados, fiz um rap apaixonado, mas chamei atenção para o preconceito social e, lá mesmo, fiz um link para uma outra declaração de amor e falei de Literatura, e faço isso sempre, quando morreu um outro amigo, falei de vida, envelhecimento e religião, mas é inegável, tudo não passa de uma maquiagem para despistar esta imperiosa exaltação do ego.
           Por motivos óbvios fiquei lisonjeado com as palavras que a amiga e poetisa Elis Zampieri escreveu para mim: “quem tem coragem de se expor com intensidade, fica sob o risco de ser interpretado, de ser lido, de ser definido. Estamos todos, mais ou menos nessa condição. A diferença é que alguns preferem se poupar em determinadas situações. Já disse algum sábio que "não é fácil compreender sangue alheio" e você procura escrever com sangue”.
           Um educador, do meu grupo de "blogs Educativos", atraído pela curiosidade que a “manchete” despertou, provavelmente decepcionado, e com todo direito, demonstrou o seu desdém em uma única frase: “aparece cada um...
           O fato em si não tem a menor relevância, mas o que sempre me incomoda é quando o sarcasmo substitui a crítica, e não deixa espaço para contraposições de ideias e, com isso, perde-se uma oportunidade preciosa para aprender.
           Não existe laboratório melhor do que o nosso coração, por isso criei o verbo bloguetar, em vez de blogar, assim, pelo menos aqui, posso conjugá-lo da maneira que me convier, sempre repensando minhas certezas e desenvolvendo posturas tolerantes diante dos pensamentos divergentes que vão aparecendo. Isso requer um aprendizado constante... o aprender sempre precederá o ensinar, “óbvio ululante" que deveria ser indispensável a qualquer "cretino fundamental" que se diz educador.

sábado, 19 de junho de 2010

MEU AMIGO VAI SER CREMADO AMANHÃ EM PORTUGAL



VÍDEO ACRESCENTADO EM 03/07/2012



            Morreu ontem, 18 de junho, aos 87 anos em sua casa em Lanzarote, nas Ilhas Canárias o escritor português José Saramago, a morte do escritor de "Ensaio sobre a Cegueira", cuja obra foi traduzida em 56 idiomas, com tiragens de milhões de exemplares, e, apesar da língua portuguesa ter perdido o seu único Prêmio Nobel da Literatura, minha dor é infinitamente maior do que a de todos os aficionados pela literatura... morreu hoje um grande amigo.
            O ano era 1960, eu tinha apenas nove anos de idade, e estávamos todos reunidos, parentes e amigos, em frente ao Cine Brasil Muriaé para assistir o filme “Os Dois Ladrões” , direção de Carlos Manga, com Oscarito, Cyl Farney e Irma Alvarez, em que meu primo, 14 anos mais velho que eu, Márcio Hanstenreiter, fez uma pequena ponta.
            Fora a Lambreta, com a qual desfilava pelas ruas aqui de Muriaé, a cena em que ele aparecia no filme ficou para sempre em minha memória... idealizei nele tudo o que a timidez de uma criança do interior poderia desejar... era o herói que eu queria ser.
            Muito mais tarde, nos anos 70, eu já adulto, trabalhamos juntos no Rio de Janeiro, em uma das lojas de calçados femininos, de nosso tio Dico, e esta admiração e amizade se consolidou para sempre.
            Depois, perdemos o contato... Márcio, aviador, quase não aparecia em Muriaé, separou-se da esposa vinte poucos anos atrás, os dois casaram novamente, ele foi morar em Manhuaçu (MG) e ela, em Belo Horizonte.
            Seus três filhos, o do meio, Luís, amigo querido, tem uma confecção aqui em Muriaé, os outros dois, Márcio Henrique e Afraninho, mudaram-se para Portugal, um dentista e o outro empresário.
            Depois de mais vinte anos separados, o Márcio e a Marisia voltaram a se casar, e uma das comemorações foi aqui em casa, fizemos um churrasco inesquecível, e eu, que tenho mania de fotografar e registrar tudo, talvez pela emoção de reunir pessoas tão queridas, não tirei uma única foto.
            No mês seguinte ao churrasco, os dois foram passear em Portugal, na casa dos filhos... Cheguei a comentar com a Maria Inês (minha esposa) a alegria que deveria ser para o Márcio Henrique e o Afraninho receber a visita dos pais, separados há tanto tempo, agora tão apaixonados.
            Hoje recebi um telefonema do Luis comunicando que o pai faleceu, e que será cremado amanhã em Portugal (...)
20/06/2010:
           
Ontem, ainda muito abalado com a morte do Márcio, depois “muitas” cervejas, terminei a postagem com esta frase: Qual é a importância para mim, hoje, da cremação (também amanhã), do consagrado escritor português José Saramago?
           Como estava em avançado estado “etílico” fiquei pensando em apagar o post, mas lembrei de um fato que ocorreu um pouco antes da última postagem “Rap e Grafite Virtual”, quando recebi da minha querida amiga Marli Fiorentin, do meu grupo de blogs educativos, um e-mail fazendo um comentário sobe a caricatura de Sancho Pança, 
feita pelo Sinfrônio, das caricaturas da Revista "Nosso Patrimônio", e que a Maria Inês tinha detestado (na parte superior do blog, à direita): “Diz pra Dulcinéia que ela está perfeita”e, por causa deste comentário, encontrei este poema de José Saramago: 
Dulcineia
Quem tu és não importa, nem conheces
O sonho em que nasceu a tua face:
Cristal vazio e mudo.
Do sangue de Quixote te alimentas,
Da alma que nele morre é que recebes
A força de seres tudo.

           Não acrescentei o poema à postagem, até porque as posturas da Inês não tem nada de "vazio e mudo", muito menos se "alimenta do sangue" deste Quixote aqui, mas esta visão do sonho alimentando a realidade só fez aumentar minha admiração pelo escritor.
           São por estas coincidências corriqueiras, que os pensamentos dos outros (e “outros” aqui tem um peso imensurável) entram em nossas vidas e de lá não saem nunca mais.
           Resolvi deixar a postagem como está, assim, quem sabe, por estes mistérios da vida, mais pessoas fiquem estimuladas conhecer o genial José Saramago...

Postagem relacionada: AQUI