
| AMIGO OCULTO AEROPORTO |
CLIQUE NA FOTO Minha querida amiga blogueira, Jenny Horta, bem ao estilo de uma grande educadora que é, mandou uma mensagem de natal com estas significativas palavras de Gandhi: “
Nunca perca a fé na humanidade, pois ela é como um oceano. Só porque existem algumas gotas de água suja, não quer dizer que ele esteja sujo por completo”.
Somos míopes a respeito das potencialidades de nossos semelhantes e quando só temos olhos para estas “
gotas de água suja”, a visão fica estreita... só enxergamos sombras, e o medo limita, sobretudo, o nosso relacionamento social.
Nas reuniões que antecederam o início das aulas do
Projovem, apesar de todos saberem que iriam trabalhar em escolas de periferia, ninguém queria ir para o Aeroporto, já que é o bairro com a fama de ser um dos mais violentos aqui em Muriaé, e nós, os últimos convocados, acabamos quase todos designados para lá.
Logo no início constatamos que aqueles temores tinham um fundo de verdade, já que tão logo começaram as aulas um aluno foi
assassinado em disputa pelo controle do tráfico de drogas, um segundo preso por envolvimento também neste comércio ilícito, e dois outros foram “jurados” de morte, mas o que me impressionou mesmo foram comentários feitos por educadores que já atuam no bairro há muitos anos: “estavam esvaziando os pneus dos carros dos professores, conversei com o traficante e isso nunca mais aconteceu”, “Se mandarem fechar a escola, não discutam... fechem na hora”. Tudo isso é muito triste, tanto os fatos como os comentários... dão a sensação de impotência e realimentam um preconceito que segrega, indistintamente, “todos” os que moram em bairros de periferia e, como sempre, as maiores vítimas são os jovens... Alguns de meus alunos relataram que omitem o nome do bairro quando estão procurando emprego.
Os efeitos desta violência reflete sempre na juventude mais pobre, até o temido “traficante” tem rosto, é de carne e osso, tem família, alguns assentam-se em banco de escola, tem dúvidas de conteúdo, querem estudar e melhorar de vida e, na verdade, não passam de uma peça frágil em uma hierarquia, cujo extremo oposto é comandado pelos grandes cartéis do tráfico internacional, que disputam entre si a manutenção e a conquista de novos "territórios", são eles que determinam a dominação pela violência nesta agressiva disputa que todos conhecemos pelos noticiários policiais, mas seus tentáculos também permeiam toda a sociedade, inclusive nos altos escalões da república, mas os temores e as ações preventivas da sociedade são desviadas e dirigidas quase sempre para as periferias, e é lá que o jovem pobre sofre as consequencias.
Este jovem, mesmo quando não está diretamente relacionado às drogas, a coexistência com o crime afeta sua convivência social, quer seja para ir à escola, ao trabalho ou simplesmente para se divertir... é sempre visto como suspeito, pois diariamente a sociedade é induzida a fazer generalizações e, como na "
história dos azulejos mal assentados", acabam aumentando, em escala nacional, o preconceito, um mal tão destrutivo quanto as drogas, e que sempre dificulta a solução de qualquer problema.
Só comecei a compreender a grandiosidade do meu trabalho de educador quando estava selecionando
algumas atividades de meus alunos para colocar no blog da escola, e não consegui conter as lágrimas, tanto pela história de vida de cada um, como pela vergonha da minha ignorância a respeito dos problemas e dificuldades daquelas pessoas que se tornaram tão próximas de mim, principalmente pela coragem e força para enfrentar e superar tantas adversidades.
Alguém iluminado no governo federal concebeu o programa do Projovem, estabelecendo novas relações entre a escola e o trabalho, dando muito mais ênfase às potencialidades do que as vulnerabilidades de nossos jovens, mudando radicalmente a tradiconal prática pedagógica em relação a estas pessoas tão discriminadas pela dura realidade social em que vivem e, objetivamente, dando aos professores as condições necessárias para exercer seu trabalho à altura dos resultados que a sociedade espera, mostrando que esta é a abordagem revolucionária que estava faltando, e que até o nosso combalido ensino regular tem muito o que aprender.
O sistema educacional sempre separou a teoria da prática, e a escola nunca acompanhou as mudanças que naturalmente ocorreram na sociedade, por isso, tornou-se necessária a criação uma política especifica para esta juventude, já que existem jovens que são mais excluídos que outros, políticas voltadas para torná-los cidadãos, e o programa do Projovem traduz esta necessidade, a maioria não teve uma boa experiência com a escola e, por isso, ficaram socialmente vulneráveis, daí a necessidade de uma política tão especial.
Com o Projovem passei, efetivamente, a fazer parte das soluções... por isso nunca em minha vida me senti tão valorizado e integrado.
Até as palavras mais comuns do natal ganharam outro significado para mim... Por isso quero desejar a todos, principalmente aos meus queridos alunos do bairro Aeroporto, meus professores de vida, um feliz natal e um ano novo com muita
PAZ e muito
AMOR.